Publicando no Sul Global: uma fábula

Era uma vez um pesquisador de uma determinada ciência social aplicada de um país do Sul Global. Movida por problemas de sua história democratizante tardia, a pesquisa desse tal país gerou debates sobre a concretização de direitos e o entendimento deles (e do sistema que, pretensamente, os efetiva). Compreender, tal como o mito de Hermes, as intrigas, razões, ambiguidades motivou certo grupo de estudiosos a se reunir em torno desse mesmo fim. Propuseram, então, a criação de uma revista científica.

Nesse país do Sul Global, até recentemente, as revistas se dividiam (ou dividem?) em camadas, em uma escala elaborada por uma nata de pesquisadores, organizados no chamado Centro de Comando.[1] As camadas mais prestigiosas eram indicadas por signos alfanuméricos iniciais. Logo menos, a revista científica desse grupo alcançou esse status mais exuberante, discretamente indicado no website que a abrigava – um charme que só os iniciados podiam perceber.

Desejoso por contribuir para esse grupo de pesquisadores que se formou no entorno da revista, esse tal pesquisador do Sul Global resolveu encaminhar seu modesto manuscrito. Linhas iniciais de uma pesquisa que ainda floresceria em outros degraus acadêmicos. Algumas estações depois veio a decisão do editor: “Arquivar”. Mas por quê? Nenhum parecer recebido e quatro tentativas frustradas de retorno com os pareceristas.

Catapimbas! Mas que azar, hein? Sistemas de e-mail são mesmo complicados. As mensagens aos pareceristas devem ter caído na caixa de spam. Realmente, a realidade acadêmica no Sul Global é precária – não se pode negar. Acúmulo de funções, atribuições, tarefas acadêmicas. O parecer fica por último mesmo, não tem jeito.

Se bem que, convenhamos, esse negócio de publicar por publicar é como brincadeira de criança na vida adulta. Compara-se quem tem mais, não o objeto em si. Um sanduíche de alface. Mas a comparação é velada. Coerência do currículo? Às favas! Quer-se mais é número! O princípio da multiplicação dos artigos opera sob a lógica do “eu assino o seu, você assina o meu, e sejamos felizes”.

Outras estações adiante, esse tímido pesquisador do Sul Global resolveu novamente submeter outro escrito à revista. Submeter o escrito ou submeter-se? Dane-se, isso não importa. Importa é número. “Mas o texto tem valor”. Sim, ele sabe. Foi bem escrito, refinado, refletido.

Pausa para outras estações.

Notificação na caixa de entrada. Temos uma decisão: “arquivar a submissão”. De novo? Sim – “lamentamos pelo tempo de análise” – sim, ok, tudo certo, mas e aí? Foi “consequência das dificuldades de gestão editorial de um crescente número de submissões, sobretudo durante o período da pandemia”. Mas a pandemia foi há seis anos!? Caramba! Tudo bem.

Mas nenhum parecer? Não, “apenas um parecer recebido nestes meses de análise da submissão e 4 tentativas frustradas de retorno com outros pareceristas”. Pelo menos tentaram quatro vezes, como da outra vez.

Além de tímido, esse pesquisador do Sul Global é meio desconfiado, sabe… Não sei se “futuras submissões” serão bem-vindas, tal como as comunicações da revista se encerram. Submeter-se novamente, não.

O Centro de Comando decerto não observou isso. Mas esse pesquisador do Sul Global pôs-se a analisar os últimos 10 anos de publicações da revista. O resultado mostra que o tal círculo era muito mais fechado do que parecia. Tolinho esse nosso pesquisador. Observe.

No período indicado, o pesquisador Tutti-Frutti publicou exuberantes nove artigos na revista. Em um desses anos, foram três textos. Realmente, assim os avaliadores ficam assoberbados.

Sacrossanto ficou em segundo lugar, com o total de sete textos publicados. Na terceira posição temos um empate quádruplo: Seu Caterê, Baronesa, O Bom Selvagem e Cruzeiro do Sul com quatro textos. Já com três textos, um empate duodécuplo: Das Montanhas, Visconde, Dom, Maravilha, Niro, Camomila, O Trino, Tribuno, Vestido, Dona Rainha, Capo e Corajoso.

Moral da história: não gostamos de democracia. Bom mesmo é estar entre os nossos. Aos amigos, ahead of print, aos demais, arquivar.


[1] Apesar de formalmente existirem, essas camadas perderam força de uns anos para cá. O Centro de Comando está mudando as regras do jogo.

 

Como citar este texto, segundo a NBR 6023/2018 da ABNT

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