Parte 2 — A saga do X: confiança, expectativa e a física das fortunas*
* Segunda parte do texto adaptado da palestra homônima proferida no Ciclo de Palestras da Washington & Lincoln University, em 30 de junho de 2026. Você pode acessar a primeira parte aqui.
Na edição anterior, sustentou-se que a segurança jurídica repousa sobre uma confiança que o ambiente digital tornou ao mesmo tempo indispensável e frágil. A tese, porém, permaneceu abstrata, e a abstração pede nome, rosto e número. Convém, então, examinar duas fortunas erguidas sobre a mesma letra, o X, uma no Brasil, outra nos Estados Unidos, uma em ruínas, outra no ápice, ambas reveladoras da mesma física.
Impõe-se, de início, uma ressalva que a exposição original fez questão de sublinhar. As duas figuras a seguir, Eike Batista e Elon Musk, são profundamente controversas, tanto no plano moral quanto no ético. Nada do que se afirmará adiante deve ser lido como ingenuidade ou absolvição, pois há muito a dizer, com severidade, sobre cada uma delas. O interesse aqui, contudo, não é moral, mas estrutural. Não se as toma como personagens a julgar ou a celebrar, mas como casos que revelam, com rara clareza, o mecanismo da confiança no ambiente contemporâneo. Suspende-se o juízo moral por método, não por indiferença, visto que a sua mistura com o argumento estrutural enfraqueceria ambos.
Comece-se pela origem da letra. Para Eike Batista, o X simbolizava a multiplicação da riqueza, e com ele batizou o conglomerado inteiro: OGX, no petróleo; MMX, na mineração; OSX, na construção naval; LLX, na logística. Em 2012, o empresário figurava como o homem mais rico do Brasil e a sétima pessoa mais rica do mundo, com patrimônio estimado em torno de 30 bilhões de dólares.[1] No coração do império estava a OGX, petroleira apresentada como a promessa brasileira do pré-sal. A companhia sustentava projeções de produção grandiosas, e o mercado, seduzido, passou a precificar mais a promessa futura do que o resultado presente.
A ruptura veio em 2013. A OGX desistiu de operações e interrompeu a construção de plataformas, e a produção efetiva revelou-se ínfima diante do que se anunciara. As ações, que haviam atingido a máxima histórica de 23 reais e 27 centavos, despencaram para 13 centavos em outubro daquele ano, exatos três anos após o pico. A derrocada da OGX desencadeou um efeito dominó sobre todo o grupo, e o valor de mercado das companhias abertas do conglomerado, que beirara 119 bilhões de reais, reduziu-se a menos de 3 bilhões. A fortuna pessoal de Eike encolheu para cerca de 3 bilhões de reais, aproximadamente a décima parte do que fora pouco antes.[2] Nos anos seguintes, o empresário foi condenado por crimes contra o mercado de capitais, entre os quais a manipulação de mercado e o uso de informação privilegiada, e, no âmbito da Operação Lava Jato, por corrupção e lavagem de dinheiro.[3]
Interessa a anatomia dessa quebra. A confiança, quando se rompe, não se rompe sozinha, pois arrasta consigo investidores, credores, trabalhadores, o mercado de capitais e a própria credibilidade regulatória. A perda de confiança de um só agente converteu-se em insegurança de todo um sistema. E o núcleo do ilícito, a divulgação de informação enganosa sobre a viabilidade dos projetos, revela um pressuposto da segurança jurídica que nenhuma norma cria sozinha: a boa-fé informacional dos agentes que habitam o ambiente. Quando o detentor da informação a manipula, a norma chega sempre tarde. A condenação, ainda que justa e necessária, é uma certidão de óbito, pois sobrevém depois que a confiança já morreu. O Direito, nesse ponto, faz a autópsia, mas não fez a prevenção.
Avance-se, agora, ao ápice, e à mesma letra. Em 2022, Elon Musk adquiriu o Twitter por cerca de 44 bilhões de dólares e, pouco depois, rebatizou a plataforma com o nome de X. Em junho de 2026, a SpaceX realizou o maior IPO da história. A oferta, precificada a 135 dólares por ação, avaliou a companhia em torno de 1,77 trilhão de dólares e captou cerca de 75 bilhões, e a estreia elevou o patrimônio de Musk à casa do trilhão, o que fez dele o primeiro trilionário. A imprensa financeira, contudo, cunhou uma expressão que convém não deixar escapar, porque é o cerne de tudo: Musk tornou-se o primeiro trilionário no papel.[4]
A ressalva não é retórica. A avaliação de cerca de 1,77 trilhão de dólares assentava sobre uma receita da ordem de 18,7 bilhões de dólares em 2025, o que evidencia o descolamento entre o preço e o fundamento.[5] A Morningstar, casa de análise que não recebe taxas dos bancos envolvidos na operação, classificou o papel como significativamente sobrevalorizado e estimou o valor justo da empresa em torno de 780 bilhões de dólares, menos da metade do valor atribuído no IPO, com um preço-alvo por ação de cerca de 63 dólares.[6] A confirmação da fragilidade veio depressa. Poucos dias após a euforia inicial, as cotações recuaram de modo acentuado, e Musk chegou a perder, momentaneamente, o próprio título de trilionário.[7] A maior concentração de riqueza já registrada revelou-se, assim, uma grandeza que oscila ao sabor da crença coletiva, e não um lastro estável.
Está aqui a simetria que demonstra a tese. Os dois impérios são feitos da mesma substância: expectativa sobre recursos ainda não extraídos. Eike prometeu o pré-sal; Musk promete o espaço. Ambos sustentaram avaliações estratosféricas sobre reservas, literais e figuradas, ainda não confirmadas. A diferença entre um e outro não está na natureza do mecanismo, que é idêntico, mas apenas no lado da linha, entre a visão e a ilusão, em que a realidade resolveu situá-los. E essa linha, no instante da aposta, é invisível. Eike também já foi, um dia, a visão que o país inteiro celebrava.
Seja-se justo com o fenômeno, e admita-se a dose de otimismo que o tema comporta. Reconhecer a inovação não equivale a endossar o homem, e a distinção precisa permanecer nítida. A reutilização de foguetes, a internet via satélite e a ambição interplanetária constituem inovação real, e seria cegueira negá-lo, por mais reservas que se guardem quanto à figura. O ponto é outro, e mais sutil. O ambiente digital e financeiro permite que a expectativa se descole de tal modo do fato que a fronteira entre visão e ilusão se torna indecidível em tempo real. E é precisamente essa indecidibilidade que deveria inquietar, porque é nela que a segurança jurídica naufraga.
A saga do X, de Eike a Musk, converge num único ponto. Em todos os seus momentos, a variável decisiva nunca foi a tecnologia, nem a norma, nem o capital, mas o elemento humano: a expectativa, a crença, a boa-fé ou a sua ausência. O X, afinal, é a incógnita de uma equação cuja única variável real é humana. Resta nomeá-la e interrogá-la, tarefa da próxima e última edição, em que se examinará a confiança como propulsor e como entrave da segurança jurídica, e se buscará, na heurística do temor de Hans Jonas, uma saída que una o alerta prudente a uma dose necessária de rebeldia.
[1] COMO ficou o patrimônio de Eike Batista após o colapso das empresas “X”. Exame, [s. l.], 2026. Disponível em: https://exame.com/invest/mercados/como-ficou-o-patrimonio-de-eike-batista-apos-o-colapso-das-empresas-x/. Acesso em: 1 jul. 2026. Cf. também: RELEMBRE a ascensão e queda de Eike Batista. Forbes Brasil, [s. l.], 2017, que registra a redução do valor de mercado das companhias abertas do grupo de cerca de 119 bilhões para menos de 3 bilhões de reais.
[2] COMO ficou o patrimônio de Eike Batista após o colapso das empresas “X”. Exame, [s. l.], 2026. Disponível em: https://exame.com/invest/mercados/como-ficou-o-patrimonio-de-eike-batista-apos-o-colapso-das-empresas-x/. Acesso em: 1 jul. 2026. Cf. também: RELEMBRE a ascensão e queda de Eike Batista. Forbes Brasil, [s. l.], 2017, que registra a redução do valor de mercado das companhias abertas do grupo de cerca de 119 bilhões para menos de 3 bilhões de reais.
[3] EIKE Batista: o empresário que criou e faliu um conglomerado em menos de uma década. InfoMoney, [s. l.], 2024. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/perfil/eike-batista-historia/. Acesso em: 1 jul. 2026. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já havia inabilitado Eike para cargos de administração em companhias abertas, em 2015, por irregularidades na OGX.
[4] ELON Musk se torna o primeiro trilionário do mundo após IPO da SpaceX. Exame, [s. l.], 12 jun. 2026; SPACEX dispara após IPO e torna Musk o primeiro trilionário. Bloomberg, [s. l.], 12 jun. 2026; SPACEX na bolsa: o IPO que criou o primeiro trilionário e dividiu Wall Street. Investing.com, [s. l.], 2026.
[5] ELON Musk se torna o primeiro trilionário do mundo após IPO da SpaceX. Exame, [s. l.], 12 jun. 2026; SPACEX dispara após IPO e torna Musk o primeiro trilionário. Bloomberg, [s. l.], 12 jun. 2026; SPACEX na bolsa: o IPO que criou o primeiro trilionário e dividiu Wall Street. Investing.com, [s. l.], 2026.
[6] SPACEX na bolsa: o IPO que criou o primeiro trilionário e dividiu Wall Street. Investing.com, [s. l.], 2026; e MORNINGSTAR warns SpaceX is significantly overvalued. CNBC, [s. l.], 3 jun. 2026.
[7] IPO de SpaceX fracassou? CNN Brasil, São Paulo, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/bernardo-pascowitch/economia/mercado/ipo-de-spacex-fracassou/. Acesso em: 1 jul. 2026.
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